No ano de 1991 mais ou menos por esta altura, penso que no dia do meu aniversário, 9 de julho, acordei como sempre faço e comecei a ver televisão, como sempre fazia quando estava de férias. Estava a Dulce Pontes a cantar no programa da manha a canção Lusitana Paixão, que ela tinha levado à Eurovisão. De repente começo a ouvir gritos desesperados na rua, muita gente desesperada, corro para a janela para ver o que se passava…
Uma mãe tinha saído de casa para ir ao supermercado que ficava a 100/200 metros de casa na rua de baixo. Tinha deixado os quatro filhos em casa, Tiago de 9 anos (?), outro rapaz de 7 anos (?), do qual não me lembro do nome, O André de 3 anos (?), e uma menina de 2 meses que estava no berço a dormir.
Eram crianças com a qual nos convivíamos no dia-a-dia, sempre que eles passavam na rua metíamo-nos com eles, por vezes a mãe deixava-os vir para a rua brincar connosco, ficávamos com a responsabilidade de tomar conta deles, e nós adorávamos, sentíamo-nos úteis.
Eram crianças adoráveis com sinais claros de alguma dificuldade económica, e por vezes de higiene. Eu e os meus amigos gostávamos bastante delas. Já na altura pensava adoptar crianças, porque comovia-me imenso o facto de haver miúdos a passar dificuldades, apenas tinha 13 anos.
Nesse dia lá ficaram eles em casa, como era norma, porque andar com quatro filhos na rua era bastante complicado. Não condeno a mãe, mas também não aprovo. As crianças andavam por casa, até que o mais pequeno decide ligar a televisão da sala, na qual ela explode por curto-circuito. Essa criança morre, os seus membros são separados do corpo, visto que soubemos que os bombeiros encontraram pés e braços da criança. Os outros dois andavam desesperados pela casa. Entretanto eu já estava na rua junto dos meus amigos, corremos para as traseiras do prédio, batemos a janela. Que era um rés-do-chão, estava tudo trancado, nada conseguimos fazer para os libertar, não sabiam abrir as janelas e num estado de tremendo desespero era difícil conseguir. Do outro lado os vizinhos do prédio também desesperados, uma chamava todo o tipo de nomes a mãe dos miúdos por tê-los deixado em casa sozinhos, um senhor queria atirar-se do 5º andar porque estava a sufocar com o fumo e se era para morrer que morresse de forma rápida. A mãe desesperada teve que ser agarrada para não entrar em casa visto querer tirar os filhos, tinha demorado um pouco mais no supermercado porque tinha encontrado uma vizinha com quem decidiu pôr a conversa em dia. Entretanto os bombeiros chegaram passado uns minutos, um dos bombeiros entrou em casa conseguiu resgatar a menina de 2 meses viva, que estava no quarto ao lado. Mas nada mais pôde fazer com os outros. Tiraram-nos de casa, nós pensávamos que ainda estavam vivos, levaram-nos para a ambulância tentando reanimá-los mas em vão, tinham falecido por asfixia.
Todos os anos por esta altura relembro deste acontecimento, com bastante tristeza, chegando mesmo a comover-me.
Tudo isto aconteceu, por um pequeno, grande descuido.